26 de janeiro de 2012

Ninho novo

O episódio que passo a narrar iniciou-se por volta dos meus treze anos. Data sugestiva, não é mesmo? Pois bem, foi castigo. Durante tal fase da minha vida, ocupei-me devorando livros de terror e de histórias sobrenaturais. Embora esses livros me deixassem extasiado, sempre fui um homem cético – esta minha falha.  Lia por diversão, pela aura única da coisa, para provar das sensações tenebrosas... E provei, na realidade mais nua e esquisita.
O gênio maligno, ou coisa assim, aproveitou-se enquanto me encontrava sozinho em casa a lavar a louça em pedido de minha solteira mãe. Já havia lavado alguns talheres e é certo que a preguiça me consumia, como também a humilhação... Veja só, um homem lavando pratos! Fazia isso mais para me livrar de um castigo do que por piedade de minha mãe, confesso. Bem, não me livrei do castigo. Continuava reclamando mentalmente, insistindo que homens e mulheres são inteiramente díspares, assim como os são suas obrigações; instante esse em que três serpentes desceram do vão da torneira e num instinto de defesa me apressei abanando os braços feito uma mulherzinha, ia me afastando quando uma delas se enroscou no direito. As outras duas, menores, alcançaram o chão e agora travavam minhas pernas de modo que fiquei imóvel. A maior, a dona do pedaço, envolveu meu pescoço e sufocou-me por alguns poucos segundos, em seguida, sussurrou no meu ouvido: “Ei vo-ssss-cê, lembra-ssss-se da vigésima terceira página? Antepenúltimo parágrafo?”. Com uma dificuldade absurda eu disse algumas palavras que ela entendeu como um “não”. “Não?!” – disse ela, “pois então o façam lembrar”. E as nanicas de baixo apertaram-me as pernas e também o aparelho masculino. Ao afrouxarem, senti como se cordas em chamas tivessem me envolvido da cintura para baixo e eu tivesse sido arrastado. Agora me lembrava nitidamente. A garganta da serpente! Poxa, a grandona tinha dado uma dica... “Vejo que agora tu lembras-sss, mas a questão não é essa. Debochaste-sss de nossa existência e por isso ele permitiu que nos vingássemos.” – disse a 7METROS. As 4METROS adquiriram rostos humanos femininos e subiam pelo meu abdome. “Ele?!” – sussurrei temendo algo ainda pior. “Olha, vamos resolver a parada. Agora já não tenho motivo algum para desacreditar, vocês existem e talvez coisas piores também.”. Engoli a saliva. “Talvez?!”, agora a 7METROS também adquiriu rosto feminino e olhou profundamente para mim como se fosse capaz de sugar minha alma apenas com aquele olhar. Em seguida, ficou apreciando meus lábios e beijou-me! Beijou-me, senhores! E tinha o gosto de tudo o que eu mais amo, tudo o que eu nem sei o que é; era hipnótica. A sua língua bifurcada provocava prazeres nunca antes vistos.
Minha visão tornou-se turva, a vagabunda passou-me algum sonífero ou veneno. Eu tinha certeza de que não acabava ali.  Por favor, eu disse a mim mesmo, que não acabasse ali. Queria mais daquele beijo, porque agora eu acreditava nas minhas três vadias como se eu mesmo fosse uma. Minhas pupilas se retraíram e minha pele tornara-se áspera, será que Ele achava que me tornar cobra era um castigo? Aquela transformação (ou teria sido aquelas visões?) me fez pular de treze para vinte e dois anos em amadurecimento. 7METROS  e as gêmeas 4METROS haviam sumido quando recuperei os sentidos, mas elas estavam em algum lugar da casa, dava para sentir. Rastejei pouco para encontrá-las, não é fácil se esconder quando se tem esse tamanho.Olhando para aqueles seis olhinhos maldosos não resisti, mas eu tinha certeza de que seria perdoado. O gênio maligno que dê seu jeito. Aí lembrei de mamãe. Mamãe perdeu seu filho! O filho dela sumiu no meio das cobras e de tudo se esqueceu.

3 comentários:

  1. aplausos, já ganhou! Muito bom mesmo, parabéns!

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  2. Uau. Fiquei sem fôlego. Talvez por ter "corrido" pra terminar de ler, de tanta ansiedade pra descobrir o final. Ou talvez porque, de tanto que o seu conto me prendeu, acabou prendendo também meu ar.
    Incrível. PARABÉNS, assim mesmo em maiúsculas.
    Já segui o seu blog pra não perder mais de vista.
    Beijo beijo, Bruna
    http://confesionesenpalabras.blogspot.com

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  3. Meus parabéns pela colocação! Merecida. Você tem um talento único em conseguir escrever como alguém do seu sexo oposto.

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