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27 de fevereiro de 2014

Para Maria da Graça

O texto de hoje não é meu. É do senhor Paulo Mendes Campos, uma crônica do livro O Amor Acaba. É longa, gente, mas vale muito a pena ler, acredite. Pode mudar o seu eu e irá te inspirar a levar e ver a vida de um outro modo. Descobri recentemente por indicação de uma leitora daqui do blog e, meu Deus, como agradeço! E como sou tola de não me deparar com ele antes! Vou imprimir e ter sempre comigo para a eternidade, para as diversas situações que a vida nos proporciona nas quais devemos aplicar sempre a loucura. Erasmo de Rotterdam teria se orgulhado desse texto. 

Para Maria da Graça
Paulo Mendes Campos

Quando ela chegou à idade avançada de 15 anos eu lhe dei de presente o livro Alice no País das Maravilhas.


Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucuras. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.

Nem o papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego"?

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

A sozinhez (esquece esta palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. "A porta do poço!". Só as criaturas humanas, nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados, conseguem abrir uma porta bem fechada e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e tens a presunção petulante de esperar dela grandes consequências.

Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece geralmente às pessoas que comem bolo. Maria, há uma sabedoria social ou de bolos; nem toda sabedoria tem de ser séria ou profunda.

A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostaria de gatos se fosse eu?"

Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os corredores chegam exausto a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! Mas quem ganhou?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não conseguirá saber quem venceu. Para o bolso: se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupes com a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.


Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance." Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois um romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.

Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.

E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuindo tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida toda uma quantidade imensa de camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem-disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nosso domínio disfarçado de camundongo. Mas como tomar o pequeno por grande e o grande por queno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixa preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de sofrimento ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.

Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".

Conclusão: a própria dor tem a sua medida. É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

11 de novembro de 2013

Autorretrato

Estou no segundo semestre do curso de jornalismo e nesse período tenho a disciplina de Fotografia e Iluminação. Estava bastante ansiosa, aliás penso que não há quem não goste de fotografia e qualquer outra pessoa estaria tão ou mais ansiosa que eu. Embora eu tenha pouquíssimo conhecimento técnico, acredito no meu olhar apurado sobre as situações e mais do que isso, idealizo as situações para a construção dos significados. Não consigo ver a fotografia apenas como captura da realidade e quando digo isso lembro de Anka Zhuravleva - que já mencionei aqui.

A fotografia possibilita o mistério, a captura das expressões, dos sentimentos, do sonho. Essa é a função dela para mim, é claro. Com essa concepção na caixola tirei fiz alguns autorretratos (e acabou que não escolhi nenhum deles) para a atividade inicial da disciplina. É óbvio que eu faria algo inspirado em Carroll e Burton, afinal eu me vejo neles. Talvez não represente da melhor forma a minha personalidade em questão de atitudes, mas sim em relação à minha forma de pensar, escrever, imaginar. 




Estive pensando em trazer as fotos dos meus colegas, se eles consentirem. Vamos ver. Tirem também os seus e se quiser vê-los aqui entrem em contato comigo por qualquer uma das minhas redes sociais. Até, pessoal!

2 de novembro de 2013

Chás inspirados em clássicos da literatura


Inspirados em clássicos da literatura esses chás foram desenvolvidos a partir do manual "11 regras de ouro para a perfeita xícara de chá", do autor George Orwell retirado de "The Artists' and writers' cookbook".

Aqui estão meus favoritos, como já era de se esperar: 
Na embalagem estão descritos os elementos/ervas que compõem o chá. 

"Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta!"

31 de outubro de 2013

Personagens que deveriam ter se conhecido


O que elas têm em comum? Rejeitadas ou infelizes na realidade dos seus mundos, todas fugiram para universos fictícios, onde suas loucuras particulares eram compreendidas ou onde a fantasia lhes permitia alguma espécie de distração. Alice caiu na toca do Coelho e foi parar no incrível País das Maravilhas, Dorothy rodopiou três vezes até chegar na magnífica Terra de Oz, Coraline conseguiu abrir a menor portinha de sua casa e deparou-se com o fantástico e aterrorizante Mundo Secreto e, por fim, Matilda que dedicou-se ao interessante e surpreendedor Paraíso da Leitura.

Alice, Dorothy, Coraline e Matilda: O clubinho das incompreendidas

AS CORES
Se observamos bem a foto acima e os filmes, podemos constatar uma cor predominante nos trajes das personagens: o azul. Analisando a simbologia da cor e a personalidade das personagens, notam-se algumas variações de significado. Num trabalho realizado por Antônio Porto e Clécio Dias (graduados em Arte, Design e Multimídia pela UNIT), no qual especula-se sobre os efeitos psicológicos das cores, é relatado que o azul representa o sonho, os domínios profundos do espírito, os devaneios mentais. Estes são os aspectos que estimulam a imaginação e daí temos a idealização dos universos paralelos e fictícios.

Não é que se encaixa no perfil das histórias de nossas mocinhas? As cores agem como construtoras do ser, assim como também reforçam as próprias características que produzem, funcionando aqui como reflexo da íntima personalidade de cada uma.

ANIMAIS
Bastante solitárias, nossas meninas dispunham apenas da companhia de seus animais. Um gato preto acompanha de perto cada passo de Coraline e é este quem sutilmente lhe guia para a descoberta da verdade por trás do Mundo Secreto. A felicidade e a cor de Dorothy só sobreviveram graças à Totó, seu cachorro. Não fosse por ele, ela teria se tornado cinza, tal como seus tios. Já Alice, tinha sua gatinha Diná e os incontáveis seres do País das Maravilhas, a começar pelo Coelho Branco.

VIDA
A vida tediosa dessas meninas só era preenchida pelas suas curiosidades e devaneios. Matilda, inteligente e incompreendida por seus pais ignorantes, cresceu sozinha e muito cedo aprendeu a falar e logo também a ler. Coraline era muito solitária, passava o dia explorando cada canto de sua nova casa e dos arredores em busca de algo que lhe fosse interessante. Dorothy, apesar de muito alegre, vivia num ambiente árido e cinzento, onde nada tinha graça ou cor; seus tios renderam-se à essa paisagem e por isso perderam a alegria. Alice, por sua vez, era tão inconformada com seu mundo que criou outro para si, ainda que idealizado e restrito ao sonho.

PAIS AUSENTES
Outro fato comum nas narrativas é a ausência dos pais. Dorothy era orfã, Matilda enjeitada pelos seus pais, Coraline era esquecida porque os seus sempre estavam ocupados e em Alice as figuras de pai e mãe sequer são mencionadas relevantemente. A carência e o tédio pela falta de relações sadias e divertidas levaram essas personagens para os campos mais extraordinários da imaginação. Essas ausências revelam o abandono, relegando as personagens à solidão, estado esse que abre as portas para a imaginação, para a reflexão e, por outro lado, para a tristeza...

HISTÓRIA INFANTIL
Estive pensando em como seria uma história onde essas personagens estivessem reunidas, qual tipo de aventuras elas teriam, os diálogos, a relação com os outros personagens das narrativas, a amizade. Você tem algum palpite?
Minha ideia está dada, agora deixo para algum autor mais disposto e entendido. Só digo uma coisa: eu quero ler e passar para minhas gerações!
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