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4 de agosto de 2014

A escada (texto que fiz quando tinha 12 anos)

É sempre bom guardar diários e cadernos antigos para reler no futuro. Revirando minhas papeladas me deparei com vários textinhos bobos de menina, ri muito e fiquei até um pouco surpresa com o meu modo de escrever já aos doze anos. Abaixo, um deles, talvez incompleto, não me lembro...


Enquanto se olhava no espelho com seu sorriso laranja, os cinco dedos da mão deslizavam pelos cabelos como se tivessem tomado a forma de um pente. Um princípio de chuva no céu diminuíra o sorriso, mas não desanimara Cessé por completo. Atrás da porta do seu quarto, um calendário rabiscado com inúmeros "Xs" insinuavam uma contagem, como se cada dia riscado significasse "Um a menos!".

A razão de toda a cerimônia era o retorno de Miguel; já somava um ano que não se viam. Enfim, chegara o momento do reencontro. Ambos faziam planos para essa ocasião, pensavam em andar de bicicleta até a Fazenda Moinho para ver o sol se pôr vermelho. Haviam tantas coisas para serem ditas e outras tantas a serem esquecidas. O tempo e o espaço lhes puseram em conflito; depararam-se com aflições e carências que geraram, talvez, atitudes imperdoáveis. No entanto, uma única coisa gritava mais intensa nessa hora: o desejo de se tocarem.

Miguel, já pronto e coberto de nervosismo, discou o número de Cessé.

 Alô?  respondeu ela de um jeito meio falhado porque tentava abotoar o sapato.

 Oi, Cé. Estou pronto. Já posso passar aí?

 Falto só o perfume, pode vir  quando, na verdade, ainda ia se maquiar.

– Tudo ainda parece tão virtual, não consigo acreditar que daqui a alguns minutos você não será mais uma imagem que guardei.

– Continuarei sendo uma imagem, só que agora com vida. Vou terminar aqui, te espero.

– Tudo bem, tchau.

Cessé apressou-se e, passados alguns minutos, reconheceu o barulho de motor do carro de Miguel. Fechou os olhos, escutou a buzina, sorriu e desceu as escadas.

17 de abril de 2013

Alice é o enigma


Alice deparou-se com duas portas em seu caminho. Confusa, ela pôs a mão no queixo  que era como costumava fazer quando tinha que pensar ,  ao ouvir indeterminadas vozes ecoantes.

–  Se fores sábia, entrará pela direita!
–  Se fores madura, entrará pela esquerda!

Nossa pequena, perdida nos seus conflitos interiores, sofria de atelofobia. No mundo dos grandes, todos lhe diziam que ela era desastrada e quase nunca conseguia fazer algo bom, muito bom. Geralmente, as pessoas de lá lhe ditavam o que era mais sensato fazer. Nesse momento, sentia-se numa brincadeira de cabo de guerra. Não porque se considerava sábia ou madura, muito pelo contrário! Estava longe de Alice se sentir uma das duas coisas. Parada estava, parada continuou.

Como as sugestões das vozes divergiam, tudo ficara ainda mais confuso. Alice então sentou e chorou muito. Lá pelas tantas, quando as lágrimas cessaram e o seu rosto já estava agora bem inchado, tornou a olhar para as portas e disse para si mesma "Decido-me a tomar uma decisão!".

E assim se pôs de pé e logo em seguida começou a fazer inferimentos bastante convenientes. "Se eu não for sábia nem madura, a porta não se abrirá". "Antes de tudo, acredito que seria bastante inteligente da minha parte olhar pela fechadura o que me aguarda do outro lado".

Tal como disse, foi lá e fez! Contudo, não enxergava mais que escuridão absoluta enquanto espremia os olhos para ver o que quer que fosse através da fresta. Parou outro instante e pensou  "Como é que abrirei uma porta se nem mesmo tenho a chave?".

Uma voz ecoou novamente.

- A chave é você, menina burra!

26 de janeiro de 2012

Ninho novo

O episódio que passo a narrar iniciou-se por volta dos meus treze anos. Data sugestiva, não é mesmo? Pois bem, foi castigo. Durante tal fase da minha vida, ocupei-me devorando livros de terror e de histórias sobrenaturais. Embora esses livros me deixassem extasiado, sempre fui um homem cético – esta minha falha.  Lia por diversão, pela aura única da coisa, para provar das sensações tenebrosas... E provei, na realidade mais nua e esquisita.
O gênio maligno, ou coisa assim, aproveitou-se enquanto me encontrava sozinho em casa a lavar a louça em pedido de minha solteira mãe. Já havia lavado alguns talheres e é certo que a preguiça me consumia, como também a humilhação... Veja só, um homem lavando pratos! Fazia isso mais para me livrar de um castigo do que por piedade de minha mãe, confesso. Bem, não me livrei do castigo. Continuava reclamando mentalmente, insistindo que homens e mulheres são inteiramente díspares, assim como os são suas obrigações; instante esse em que três serpentes desceram do vão da torneira e num instinto de defesa me apressei abanando os braços feito uma mulherzinha, ia me afastando quando uma delas se enroscou no direito. As outras duas, menores, alcançaram o chão e agora travavam minhas pernas de modo que fiquei imóvel. A maior, a dona do pedaço, envolveu meu pescoço e sufocou-me por alguns poucos segundos, em seguida, sussurrou no meu ouvido: “Ei vo-ssss-cê, lembra-ssss-se da vigésima terceira página? Antepenúltimo parágrafo?”. Com uma dificuldade absurda eu disse algumas palavras que ela entendeu como um “não”. “Não?!” – disse ela, “pois então o façam lembrar”. E as nanicas de baixo apertaram-me as pernas e também o aparelho masculino. Ao afrouxarem, senti como se cordas em chamas tivessem me envolvido da cintura para baixo e eu tivesse sido arrastado. Agora me lembrava nitidamente. A garganta da serpente! Poxa, a grandona tinha dado uma dica... “Vejo que agora tu lembras-sss, mas a questão não é essa. Debochaste-sss de nossa existência e por isso ele permitiu que nos vingássemos.” – disse a 7METROS. As 4METROS adquiriram rostos humanos femininos e subiam pelo meu abdome. “Ele?!” – sussurrei temendo algo ainda pior. “Olha, vamos resolver a parada. Agora já não tenho motivo algum para desacreditar, vocês existem e talvez coisas piores também.”. Engoli a saliva. “Talvez?!”, agora a 7METROS também adquiriu rosto feminino e olhou profundamente para mim como se fosse capaz de sugar minha alma apenas com aquele olhar. Em seguida, ficou apreciando meus lábios e beijou-me! Beijou-me, senhores! E tinha o gosto de tudo o que eu mais amo, tudo o que eu nem sei o que é; era hipnótica. A sua língua bifurcada provocava prazeres nunca antes vistos.
Minha visão tornou-se turva, a vagabunda passou-me algum sonífero ou veneno. Eu tinha certeza de que não acabava ali.  Por favor, eu disse a mim mesmo, que não acabasse ali. Queria mais daquele beijo, porque agora eu acreditava nas minhas três vadias como se eu mesmo fosse uma. Minhas pupilas se retraíram e minha pele tornara-se áspera, será que Ele achava que me tornar cobra era um castigo? Aquela transformação (ou teria sido aquelas visões?) me fez pular de treze para vinte e dois anos em amadurecimento. 7METROS  e as gêmeas 4METROS haviam sumido quando recuperei os sentidos, mas elas estavam em algum lugar da casa, dava para sentir. Rastejei pouco para encontrá-las, não é fácil se esconder quando se tem esse tamanho.Olhando para aqueles seis olhinhos maldosos não resisti, mas eu tinha certeza de que seria perdoado. O gênio maligno que dê seu jeito. Aí lembrei de mamãe. Mamãe perdeu seu filho! O filho dela sumiu no meio das cobras e de tudo se esqueceu.

2 de dezembro de 2011

A moça

Quando ela chegou, eu devia ter uns onze anos e Carol uns nove. Ficamos acanhadas de início, mas queríamos mostrar-lhe toda a casa e onde ficava cada coisa. Era uma moça simples da zona rural de uma cidade próxima, foi o que ficamos sabendo. Negra, de baixa estatura, não devia ter mais que vinte anos. Bonita a danada. Gente fina nas primeiras observações. Sorria com tamanha facilidade; com qualquer coisa mesmo. Era toda bobinha, engraçada ela. Acho que nunca tinha visto um computador, apesar de saber que existia. Certa vez, numa das nossas viagens, ela experimentou o elevador. Ficou nervosa, tonta, cheia de piriri. Não queria saber de elevador, só de escada. Ah sim, e a escada rolante? Ficou apaixonada. E depois ela se acostumou com o elevador também, não queria mais escada. Uma moça boa, trabalhadeira, confiável – minha mãe dizia. E era mesmo, não se cansava não, mas reclamava mais que minha avó nos dias de bagunça.
Chamava-se Elizabete. Elizabete de Jesus. E, ao contrário do que eu pensava, tinha mais de vinte anos, mas não aparentava não. Virou uma pessoa da família de tanto tempo que passou com a gente. Na cozinha não era lá essas coisas toda, mas, vez ou outra, inventava umas “artes” que saiam bem gostosas. Foi ficando moderna, vivia inventando modelos de roupa e me pedia pra dar uma olhada em uns na internet. Tinha um sonho: seria costureira.
Um dia eu estava pela rua e vi num poste um cartaz anunciando um curso de costura. Anotei o número e passei pra ela. Animou-se toda. Foi lá, se inscreveu, começou. De início eu não colocava muita fé não porque era desastrada a doidinha. Mas em menos de um mês já estava “craque”, cheia de planos e fazendo uma roupa atrás da outra com um capricho pros deuses. Determinada, arteira, cheia de aspirações; por isso meu pai e minha mãe fizeram uma vaquinha e compraram-lhe uma máquina. Aí pronto, começou a se achar a estilista. Costurava pra todo mundo aqui em casa e pra as amigas. Um sucesso. Depois de um tempinho começou com um papo de que ia trabalhar em fábrica. E lá foi ela, mudar de vida.

Texto para a 166ª semana do Blorkutando.
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